⏳ O Relógio da Meia-Noite – Parte 2
O som da batida no vidro reverberou como um trovão em meio ao silêncio congelado da rua. Daniel recuou instintivamente, mas seus pés pareciam pesados demais para correr. O reflexo dentro da vitrine sorria cada vez mais largo, um sorriso antinatural, esticado além do que um rosto humano poderia suportar.
De repente, os olhos do reflexo se tornaram negros, profundos como poços sem fundo. Ele encostou ambas as mãos no vidro e, pela primeira vez, Daniel percebeu rachaduras se formando na superfície.
— Isso não é real… isso não é real… — repetia para si mesmo, como um mantra. Mas o som seco do vidro se partindo desmentia cada palavra.
O instinto falou mais alto. Ele girou nos calcanhares e correu pela rua imóvel, desviando de pessoas paradas, carros congelados e até de um pombo suspenso no ar, como uma fotografia viva. Sua respiração ecoava alto demais naquele silêncio absoluto. O mundo parecia morto, exceto por ele — e pelo reflexo que agora o perseguia.
Daniel não ousava olhar para trás, mas o som de passos ecoando no vazio denunciava que não estava sozinho. Era estranho: os passos não tinham ritmo, às vezes pareciam atrás, às vezes ao lado, e em certos momentos, à frente. Como se o reflexo estivesse em todos os lugares ao mesmo tempo.
Desesperado, voltou correndo para casa. A porta bateu atrás dele com força, e o relógio ainda estava sobre a mesa, marcando meia-noite. Os ponteiros não haviam se movido desde que o tempo parara.
Ele caiu no sofá, ofegante, e tentou entender. O que era aquele objeto? O velho da loja tinha avisado. Talvez ainda houvesse tempo de devolvê-lo. Talvez…
Foi então que ouviu.
Um sussurro.
Vindo do relógio.
Daniel se aproximou lentamente. O ponteiro dos segundos, em forma de lâmina, girava aos poucos, como se lutasse para se mover. E a cada estalo metálico, vozes escapavam. Baixas, arrastadas, mas inconfundíveis.
— Você abriu a porta…
— Não há volta…
— O tempo já não te pertence…
Daniel tropeçou para trás, o coração disparado. Olhou em volta e viu algo ainda pior: seu reflexo estava no espelho da sala, observando-o. Mas não era apenas um reflexo. Ele piscou.
O Daniel do espelho sorriu. E começou a imitar seus movimentos… até parar de repente.
O reflexo ergueu a mão, mas o verdadeiro Daniel não havia se movido. Ele estava agindo por conta própria.
A lâmina do ponteiro girou mais uma vez, e o relógio emitiu um estalo tão alto que fez as lâmpadas da sala tremerem. O reflexo encostou a mão no vidro do espelho e, dessa vez, a superfície começou a ondular como água.
Daniel recuou, mas já sabia: aquilo não era mais apenas um reflexo.
Alguém — ou algo — estava tentando atravessar.
E o relógio marcava exatamente 00h01.